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quarta-feira, 18 de março de 2015

4- O Drama Litúrgico (módulo 3)


O Drama Litúrgico*
significado de *Liturgia
s.f. A reunião dos elementos ou práticas que, regulamentados por uma igreja ou seita religiosa, fazem parte de um culto religioso.
Conjunto dos modos usados no desenvolvimento dos ofícios e/ou sacramentos; rito ou ritual.
Catolicismo. Segundo as ciências eclesiásticas, a história do culto católico.
P.ext. Também se pode referir à missa; a própria missa.

Pensa-se que os rituais litúrgicos estejam na origem das representações cénicas.
Estas representações, desfiles, poemas cantados (ditirambos) e danças estavam ligadas ao sagrado.
O desenvolvimento do teatro grego conferiu a tais representações um carácter  mais ligado à reflexão sobre as grandes questões da existência humana (tragédia) bem como à observação crítica da vida quotidiana (comédia).

Como vimos anteriormente, a igreja católica tentou limitar ao máximo o fenómeno teatral  considerando-o inapropriado e mesmo obra de forças diabólicas.
Tal como aconteceu como outras formas de manifestação artística ( arquitectura, a escultura, a pintura, a música, a literatura) a Igreja viria a apropriar-se da linguagem teatral, integrando-a  na sua estratégia de comunicação e difusão da Palavra de Deus.

A Palavra de Deus é pronunciada no decorrer de cerimónias encenadas com rigor e extrema precisão.
No espaço interior da casa de Deus existem regras de comportamento estritas para os fiéis que vão assistir e participar do ritual litúrgico.

Ao longo da Idade Média a celebração ritual que poderemos designar por missa não previa a participação (nem sequer a compreensão) do povo leigo.
Embora o povo assista à liturgia e se identifique com os monges que participam nos rituais, não tem participação directa na acção e muito menos compreende o que é dito pois não domina o latim.

Ao longo do século X terão sido introduzidas inovações nos rituais litúrgicos.

Em determinadas ocasiões, os monges passaram a incluir na celebração religiosa uma espécie de ilustração dramática de certas cenas do Evangelho, introduzindo diálogos no texto cantado ou dito pelos padres e monges.


A mais antiga terá sido o Quem Quaeritis, cujas falas são extraídas directamente dos textos evangélicos. Este episódio descreve a visita de 3 mulheres ao sepulcro de Cristo, que encontram vazio. Surge um anjo (ou anjos, as descrições da cena admitem diferentes situações) que lhes anuncia a ressurreição.
-          Quem procurais no sepulcro, cristãs?
-           Jesus Nazareno crucificado, oh celestes.
-           Não está aqui. Ressuscitou como havia profetizado. Ide e anunciai que ressuscitou.

Esta acção era interpretada por dois coros diferentes: um que interrogava (as 3 Marias) e outro que respondia (os anjos).
Mais tarde 3 clérigos* assumiam os papéis das mulheres e um sacerdote representava o anjo.

Significado de *Clérigo
s.m. Sujeito que faz parte da classe eclesiástica; aquele que alcançou as ordens sacras; cristão que exerce o sacerdócio.

O desenvolvimento destes motivos gerou verdadeiras representações dramáticas, definidas como “dramas litúrgicos” uma vez que estavam ligados ao ritual do qual eram uma extensão e um momento específico.

Frequentemente eram os padres que representavam o drama, intercalando a acção com o ritual da missa. Assim, o drama litúrgico utilizou o espaço da igreja como palco, a igreja como local onde se desenrola um grande espectáculo sagrado.

Tal como a missa, o drama litúrgico também podia concentrar-se numa pequena parte da igreja ou apoderar-se dela no seu conjunto e percorrê-la, em procissão, de uma ponta à outra.
Nas suas formas mais simples o drama litúrgico desenrolava-se num único centro de referência, geralmente no altar, ponto principal da planta da igreja à semelhança da basílica romana (ver Arte em Roma – algumas notas soltas, módulo 2).

O gesto assume valor simbólico e representativo.
O gesto e a acção têm uma importância equivalente à da palavra.
Todos estes elementos carregam significado. Cabe ao espectador aprender a interpretá-los isoladamente e no seu conjunto.
Este processo irá complexificar-se e ganhar características específicas.
Vão surgindo novos temas e narrativas.

A narração dos episódios bíblicos vai ganhando complexidade seja em termos narrativos, com maior continuidade e interacção dramática entre as personagens, seja em termos espaciais, ocupando diferentes espaços e ganhando adereços simbólicos.

A evolução cultural dá-se através da recuperação de formas antigas (clássicas ou populares) que são adaptadas a novas realidades.
A cultura não é estática nem definitiva.

A cultura transforma-se e adapta-se.

quarta-feira, 4 de março de 2015

3 - Mimos e Jograis (módulo 3)


O teatro da Antiguidade, tal como o descrevemos nos módulos anteriores, é destruído pela queda do Império Romano.

Nos mosteiros continuava-se a copiar as comédias e as tragédias da tradição clássica. Estes textos eram lidos mas não representados.

Na Alta Idade Média a ideia de teatro torna-se indefinida e nebulosa.
O teatro representado em grandes anfiteatros em ocasiões festivas, com numerosa assistência e grupos de actores específicos, deixa de existir.

Surgem numerosos profissionais que se dedicam a actividades relacionadas com as artes da representação.
São herdeiros directos dos mimos e dos actores que conhecemos em Roma.
As designações que os classificam são muito variadas (joculatores, mimi, scurrae, e ainda menestriers e trobadours, isto é: menestréis e trovadores).

menestrel 
1. Poeta medieval.
2. [Figurado]  Cantor e músico ambulante.
Plural: menestréis.

No entanto, a designação mais difundida e que mais contribui para criar uma imagem próxima daquilo que entendemos por actor será a do joculator (bobo, jogral) palavra que tem a sua raiz em jocus, jogo.
Esta ideia traduzirá também o conceito de acção teatral e de actor noutras línguas : spiel-spieler em alemão, play-player em inglês.

jogral
substantivo masculino
Truão, bobo; histrião.

A história dos jograis e dos actores em geral, ao longo de toda a Idade Média, é a história da sua condenação pela Igreja Católica que travará uma longa luta contra o teatro ao longo de séculos.

Compreende-se esta luta se tivermos em conta a revolução cultural protagonizada pelo cristianismo primitivo com a negação absoluta da cultura clássica, da qual o teatro era considerada a expressão mais mundana e diabólica.

mundano
(latim mundanus, -a, -um)
adjectivo
1. Próprio do mundo.
2. Profano.
3. Falta de moral, de comedimento.
4. Não virtuoso.
5. Dado aos prazeres do mundo.
substantivo masculino
6. Pessoa que aprecia as visitas, a sociedade, a convivência.

O cristianismo admite, sugere mesmo, reprimir a natureza, limitando a satisfação dos desejos e das necessidades para humilhar a carne.
Mas não admite que se possa alterar a natureza na medida em que, enquanto obra de Deus, é sublime e perfeita.

As condenações baseavam-se essencialmente em 3 constatações:

O jogral é vagabundo. Normalmente anda de terra em terra.  Não encena o seu espectáculo num lugar determinado, oferece-o.
Tanto representa em qualquer lugar onde se reúna um grupo de pessoas, como entra nas casas, principalmente nas casas dos ricos (que podem pagar os seus serviços) onde alegram os banquetes ou até mesmo dos camponeses por ocasião de casamentos ou baptizados.

O jogral é vão, pois a sua arte é vazia de conteúdo artístico e nada produz de útil. Para os padres da igreja o divertimento é perigoso e inútil e contrário à seriedade do estudo e da catequese.
Os textos (quando os há) apresentam-se paródicos e invertem os valores espirituais da Igreja.

O jogral é um fingidor. Desvirtua a imagem natural. O trabalho do actor que transfigura o seu corpo é considerado um pecado equivalente ao da mulher que se maquilha, ao luxo exagerado, às práticas anticoncepcionais, à sodomia e à investigação científica, práticas e  transformações da natureza consideradas diabólicas.

Assim, a condenação do fingimento, diz respeito a todo o tipo de disfarces os quais podemos considerar, de um modo geral, teatrais e também às festas populares, principalmente a grande festa carnavalesca.
A igreja condena o disfarce que, contra a natureza, transforma o homem em mulher e a mulher em homem e ambos em animais (pela cedência a todos os excessos e tentações).


O excesso de gesticulação e de vocalidade parece ter sido a marca estilística dos jograis, contorcionistas, cantores, acrobatas, ilusionistas, exibicionistas de animais amestrados, ou mimos medievais.

Mas os jograis também eram profissionais da palavra significante, ao contrário do que pensavam os moralistas. Principalmente da palavra crítica e narrativa.

Pagos muitas vezes para difamar, os jograis são o espírito crítico da sociedade. Os camponeses são o alvo preferencial da sua fácil e violenta ironia para divertimento dos mais ricos.
Além disso a sátira tinha também uma função informativa e o jogral desempenhava, um pouco, o papel de jornalista.


Distinguem-se 3 tipos de jograis:
Os que transfiguram os seus corpos com gestos e saltos abjectos, tirando ou pondo máscaras horríveis;
Os  que divertem as cortes dos poderosos dizendo mal ou gozando com os ausentes;
Os que compõem canções para celebrar os feitos grandiosos dos príncipes e  dos santos.
Estes últimos são verdadeiros cantores populares e, de certo modo, tolerados pela Igreja quando o seu trabalho é considerado digno e respeitoso da moral.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

2 - O Mosteiro (módulo 3)

Mosteiro; palavra derivada do grego monasterion que significava, inicialmente, “lugar para viver sozinho”. Mais tarde veio a designar o conjunto de edifícios e terras ocupados por comunidades religiosas.

O monaquismo cristão nasceu do século IV, no Oriente, ligado ao desejo de isolamento, de evasão do mundo profano (fuga mundi), para uma entrega mais directa a Deus, através do ascetismo.

No Ocidente o monaquismo apareceu mais tarde, nos finais do século V, por iniciativa dos bispos.  A partir dos séculos VI e VII surgem os primeiros legisladores da vida religiosa comunitária onde se destaca São Bento de Núrsia.

Os regulamentos (ou Regra) que São Bento escreveu para os seus monges na Abadia de Montecassino em 529, serviram de modelo para a organização da vida religiosa comunitária na maior parte dos mosteiros medievais europeus até ao século XII.

Segundo a Regra de São Bento o mosteiro era “uma escola ao serviço de Deus”, onde o abade era o pai e mestre dos irmãos e cuja comunidade tinha por princípios básicos os de obediência, silêncio e humildade.

A 1ª obrigação dos monges é o culto religioso, mas os irmãos possuíam outros deveres onde a oração alternava com o trabalho (ora et labora) no scriptorium, nas oficinas e nos campos em horários rigorosamente estipulados, desde o nascer do dia ao pôr do Sol.

Seguindo o ideal ascético da fuga mundi, os mosteiros medievais estavam quase todos instalados em zonas isoladas, no alto de montanhas, em vales isolados ou escondidos entre as árvores das florestas.

Eram concebidos como pequenos mundos autónomos e auto suficientes, virados para o seu interior e fechados ao exterior.

Os mosteiros tornaram-se centros dinamizadores da economia e de produção cultural na teologia, nas letras e nas ciências.


Os mosteiros exerceram um importante papel civilizacional.

A Cultura do Mosteiro - 1 A Idade Média (o feudalismo) módulo 3

No ano de 476 d.C o Império Romano do Ocidente chegou ao fim com o saque de Roma.
Os mil anos que se seguiram são hoje designados como Idade Média ou Idade das Trevas.

O Império do Ocidente foi invadido por diversas tribos bárbaras (germânicas) que o dividiram
em pequenos reinos.

A Oriente manteve-se o poder imperial com sede em Constantinopla (atual cidade de Istambul, capital da Turquia) até ao ano de 1453 quando foi tomada pelos exércitos do Império Otomano.

O embate entre o mundo romano em declínio e o mundo bárbaro, em ascensão, alterou por completo o panorama da Europa nessa época.

A economia mercantil ficou seriamente enfraquecida.
As guerras e as pilhagens constantes, a insegurança nas estradas e nas vias marítimas
Impediram a manutenção do comércio como factor económico principal.
A economia passou a ser de cariz agrário, dependente da Natureza.

Os centros urbanos degradaram-se e entraram em declínio
porque eram os alvos preferenciais dos ataques dos exércitos pelas riquezas que albergavam e pela importância política e económica que representavam.

A administração pública desorganizou-se.
O poder político pulverizou-se em múltiplos poderes locais de carácter arbitrário.
Os poderes centrais ficaram muito enfraquecidos.

Verificou-se uma profunda depressão demográfica devido ao declínio da vida económica e material das populações e às guerras constantes que então se verificavam um pouco por todo o território europeu.

Ao regime de organização política e social que então se formou na Europa medieval dá-se o nome de Feudalismo.

O feudalismo caracterizava-se por uma hierarquia de poderes organizada em pirâmide que tinha no rei a figura mais importante.


Os laços de dependência entre as pessoas eram muito fortes e as suas vidas dependiam dessas relações.
Acima dos outros homens encontrava-se o Rei (o suserano de todos os suseranos).
O seu poder provinha directamente de Deus.

A Nobreza

Abaixo do Rei estava a Nobreza, constituída por suseranos menores, senhores feudais que detinham grande poder na organização do seu feudo.

O Rei distribuía terras a estes senhores que em troca lhe juravam fidelidade e prestavam vassalagem.
A sua principal actividade consistia em prestar auxílio ao Rei em caso de guerra.
Os nobres eram guerreiros.

Na época feudal o poder estava muito fragmentado.
Cada feudo era organizado de acordo com os interesses do seu senhor.
O senhor feudal detinha o direito de exercer a justiça de forma autónoma e governava o seu feudo como uma espécie de pequeno rei.

O Clero

O clero é constituído pelos padres, monges, bispos, arcebispos, cardeais e o Papa, o bispo de Roma, é o seu líder máximo.
Todos possuem a sua própria função na hierarquia da Igreja.

Os elementos do clero são responsáveis pelo culto religioso. Em grande parte dos casos são os únicos que sabem ler; esse facto confere-lhes uma grande importância.

Na época feudal, o clero gozava de diversos privilégios e prestígio na sociedade.

O clero, no seu sentido original, existe até aos dias de hoje na Igreja Católica, porém já não possui tantos privilégios nem goza do mesmo reconhecimento

Servos e camponeses
Os servos da gleba constituíam a maior parte da população camponesa: estavam presos à terra, sofriam intensa exploração, eram obrigados a prestar serviços à nobreza e a pagar diversos tributos em troca da permissão de uso da terra e de protecção militar.

Embora geralmente se considere que a vida dos camponeses fosse miserável, a palavra "escravo" seria imprópria. Para receberem direito à moradia nas terras de seus senhores, juravam-lhe fidelidade e ofereciam-lhes trabalho.

O papel da igreja

A Igreja Cristã, ao longo da Idade Média, não se limitou a doutrinar e expandir a Fé.
Teve um importante papel civilizacional ao nível da difusão de técnicas agrícolas, da suavização dos costumes e da conservação e desenvolvimento das artes e das letras.

A Igreja, inspirada nas estruturas administrativas do antigo Império Romano, contribuiu para organizar as comunidades medievais europeias.

Surgiu o conceito de cristandade, a comunidade dos povos e das nações que, professando a fé cristã, criaram entre si laços políticos, sociais, jurídicos e culturais.
Deus passou a estar no centro de todas as coisas.

Os mosteiros foram os principais centros difusores desta nova ordem religiosa, cultural e social.






quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Teatro na Roma Antiga - 2 (módulo 2)


A produção teatral popular pode resumir-se em 3 géneros principais: a atelana (teatro popular muito apreciado na Roma antiga.  O nome deriva de Atela, cidade dos Oscos), o fescenino (Significado de Fescenino: Obsceno, licencioso, lascivo: poesia fescenina.) e o mimo.

Atelana – Farsa popular na Roma antiga, originalmente feita de improviso, que se distingue pela presença de personagens-tipo, geralmente mascaradas: o estúpido Maccus, o avarento Baccus, o parasita Dossenus, etc.
Estas personagens nunca variam ao longo de infinitas aventuras, como numa série de televisão.

Fescenino – foi menos duradouro do que as atelanas sobretudo pela sua temática política e a tendência a incluir elementos de sátira pessoal. A base da narrativa seria a poesia grosseira e obscena que os romanos importaram de Fescénia, cidade da Etrúria.

Mimo -  temática extremamente vulgar, quotidiana, citadina. Os actores representavam de cara descoberta, sem máscara. O mimo tornou-se a forma teatral preferida do povo romano. O público via-se reflectido, no actor sem máscara, como se olhasse um espelho.

A representação mímica foi  evoluindo . Terá tido uma estrutura dramática frágil e provavelmente passou de uma série de cenas cómicas, sem aparente relação entre si, para um espectáculo de variedades, incluindo canções, danças e striptease. Mas foi sempre dominado pela figura do actor-personagem.

Reflexão final

Um facto importante do ponto de vista histórico é que a ideia de teatro, em Roma, vai-se transformando e o espectáculo teatral passa a fazer parte do dia-a-dia.
Já não é exclusivamente associado a festividades religiosas ou ao debate civil e político, o teatro transforma-se em divertimento ou, como hoje dizemos, numa forma de lazer.

Assim, o teatro deixa de ser entendido apenas como instrumento cultural (de alta cultura, clássico) e passa a ser oferecido à plebe da mesma forma que os jogos desportivos e as lutas de gladiadores (cultura popular).


domingo, 18 de janeiro de 2015

O Teatro na Roma Antiga - 1 (módulo 2)


O público grego, quando assistia à representação de tragédias presenciava a reelaboração de mitos e histórias que constituíam o núcleo central da sua própria Cultura.

Em Roma, a herança desta tradição teatral, torna-se um tanto estranha para os cidadãos romanos. Só um público restrito, formado pelas elites culturais romanas, estava apto a compreender e interpretar as complexas questões dos deuses e heróis gregos.

Passa a existir uma cultura de origem grega, para as classes privilegiadas, (cultura erudita ou clássica) e outra para as classes mais desfavorecidas, que adapta os temas herdados da Grécia (baixa cultura ou cultura popular).

O teatro romano é, talvez, o primeiro exemplo desta divisão cultural que subsiste até aos nossos dias de forma muito vincada.

A literatura aristocrática (alta cultura) podia dirigir-se unicamente ao seu público, mais restrito. A produção teatral devia destinar-se a um público mais vasto uma vez que as representações teatrais constituíam um importante divertimento no quotidiano das populações.

Para conquistar a simpatia das massas populares, a representação teatral deveria tratar argumentos e ideias que fossem capazes de provocar emoções nas pessoas mais simples.
Para isso os autores romanos adaptavam os temas clássicos por forma a torná-los de mais fácil compreensão.

Nesse sentido a tragédia grega foi reelaborada transformando-se num espectáculo bem mais tenebroso e violento.

Partindo dos modelos helénicos, a máscara dos actores devia ser de grandes dimensões. 
Carantonha disforme, longos cabelos e altos penteados, a estatura exagerada por coturnos enormes, todo este aparato servia aos actores para compor as suas personagens.

A personagem foi ganhando um aspecto cada vez mais imponente chegando mesmo a tornar-se terrível.

As manifestações de dor e de cólera das personagens  ultrapassavam com frequência os limites do decoro, tornando-se atrozes, desenfreadas, assustadoras.
No palco desenrolavam-se, perante o olhar dos espectadores, episódios violentos, assassínios e suicídios, todo o tipo de atrocidades.

O encenador esforçava-se ao máximo para tornar os episódios cada vez mais cruéis para agradar ao gosto do macabro característico do povo de Roma.
As personagens faziam rir os espectadores ou então repugnavam-nos.


“Que espectáculo repugnante e terrível é aquele de um homem ataviado de modo a que a estatura fique desproporcionada, em cima de grandes socas e com uma máscara que ultrapassa a altura da cabeça e cuja boca está escancarada num grande bocejo, como se quisesse comer os espectadores. Para não falar dos chumaços do peito e do ventre que lhe conferem uma corpulência artificial e disforme”

Descrição de um actor trágico na época imperial feita por um espectador

Assim, a tragédia deixa de ser exclusivamente uma manifestação de alta cultura para se transformar em divertimento popular.

O povo mais simples e inculto entretém-se com aquele espectáculo grotesco havendo até quem desmaie de medo perante aqueles fantoches horrendos em que se tornaram os actores por baixo das suas personagens.

Da tragédia irá derivar um novo género de espectáculo que acaba por se identificar com ela.

Trata-se da pantomima. Um coro ou um cantor cantavam as passagens mais belas de conhecidas tragédias, enquanto um único actor mascarado interpretava todas as personagens.
Este actor representava as suas inúmeras mudanças de estado de espírito e de personagem recorrendo a um intenso e variado repertório gestual.

A atenção do espectador deixa de estar exclusivamente centrada no conteúdo da mensagem poética oral para se deslocar para a forma como o actor representa.

Podemos afirmar que na pantomima existe uma tradução literal da linguagem verbal para uma linguagem gestual.



A comédia teve uma história menos agitada.
A trama girava, normalmente, em torno de complicadas aventuras amorosas em que servos espertos inventavam imaginativos estratagemas para satisfazer os desejos de patrões velhos e estroinas.

As máscaras, as perucas e os trajes tinham como função uma representação tipificada da personagens. Através desses sinais o espectador percebia imediatamente se a personagem que entrara em cena era um servo ou um parasita, um sacerdote ou um espertalhão.

A figura central da comédia romana é o jovem. O mote da trama é, normalmente a sua vontade de satisfazer desejos mais ou menos urgentes.
Esta personagem usava uma máscara de traços delicados sem deformações cómicas.
O mesmo acontecia com a personagem da jovem.

No entanto as duas personagens entre as quais se dava o principal confronto, o servo e o velho, tinham traços exageradamente pronunciados.


ARTE em ROMA - algumas notas soltas (módulo 2)

Solidez
Utilidade
Beleza

Na escultura os romanos foram muito influenciados pelos gregos.
No entanto desenvolveram um carácter próprio, fundando um estilo original de narrativa nos relevos figurativos e fazendo a arte do retrato florescer a níveis de realismo e força expressiva nunca vistos. 

O espírito prático dos romanos leva-os a dar mais valor ao realismo emocional do que à representação da perfeição clássica.
É no retrato, normalmente em forma de busto, que os artistas romanos melhor respondem a este desejo conformidade entre a arte e a realidade.

Depois de um início sob a influência etrusca, a partir do período republicano os romanos adoptaram influências da arquitectura grega, com destaque para o modelo do templo grego, tipificado pela fachada com colunas e sustentando um frontão triangular.

A arquitectura é a arte que melhor expressa o génio romano,
materializando as ideias de
utilidade e grandeza, solidez, poder e força.

Pragmática e funcional, preocupou-se essencialmente com a resolução dos
aspectos  práticos e funcionais da arte de construir.

Os romanos desenvolveram 3 aspectos essenciais:
Grande variedade e plasticidade dos materiais utilizados;
Criação de novos sistemas construtivos tendo como elemento principal o arco redondo;
Desenvolvimento das técnicas e dos instrumentos de engenharia.

As construções públicas foram o tipo de arquitectura  em que os romanos melhor expressaram  o seu engenho técnico e originalidade estrutural.

Era usual que os poderosos, nomeadamente os imperadores, deixassem o seu nome associado a grandes melhoramentos públicos úteis  para o povo e para a qualidade de vida nas cidades.

Eram construções cada vez mais grandiosas destinadas à vida pública ou ao lazer e ao divertimento.

Basílicas, anfiteatros, teatros e termas são os exemplos de construções públicas.

As Basílicas eram edifícios multifuncionais.
Tanto serviam para albergar tribunais e cúrias como podiam funcionar enquanto termas, mercados ou até como palácios imperiais.

Eram edifícios que se caracterizavam por grandes espaços interiores cobertos destinados a albergar grandes grupos de pessoas.
Estas construções serviram mais tarde de base à concepção das igrejas cristãs.

Os anfiteatros foram as construções mais populares da arquitectura de lazer.
Eram de planta circular ou elíptica, sem cobertura, e erguiam-se à altura de 3 ou 4 andares.

O mais célebre foi o Anfiteatro Flávio, em Roma, mais conhecido pela designação de Coliseu devido às suas proporções colossais.


Os teatros eram inspirados nos dos gregos mas erguiam-se nas cidades. 

Octávio César Augusto (módulo 2)

Entre meados do século I a.C. e meados do século I d.C. foi a época de ouro  da civilização romana. Este período coincidiu em grande parte com o governo de Octávio César Augusto, o primeiro imperador.

Octávio acumulou poderes:
-o comando dos exércitos renovado pelo senado de 10 em 10 anos
-o direito de mandar reunir o senado e de vetar todas as suas decisões
-mais tarde conseguiu o direito de nomear os senadores
-controlou também o poder religioso

Todos estes poderes conferiram-lhe uma autoridade pessoal,
absoluta e de carácter quase divino dando início ao Culto do Imperador,
factor de propaganda e coesão política em todo o Império Romano.

Conseguiu ainda o direito de nomear ou designar o sucessor
(um filho ou, na falta deste, um sobrinho, um irmão, um protegido por adopção…)
Dando origem a que o poder imperial se tornasse dinástico.

A Eneida

O imperador Augusto encomendou a Virgílio a composição de um poema épico que cantasse a glória e o poder do Império Romano.

Um poema que além de rivalizar com a arte de Homero, cantasse também, indirectamente, a grandeza de César Augusto. 

Virgílio elaborou um trabalho que, além de toda a perfeição formal e conteúdo poético é, ainda, propaganda política .

A Eneida simboliza o poder do Império Romano sob o comando de Augusto.

Caio Júlio César (módulo 2)

Os 500 anos de existência da República Romana, que precederam o império, foram marcados por várias guerras civis.

Caio Júlio César 
(100 a.C. – 44 a.C.), foi um patrício, líder militar e político romano. Desempenhou um papel muito importante na transformação da República Romana  em Império Romano.

Júlio César teve uma complexa carreira política que o levou a ser nomeado governador de parte da Hispânia e, mais tarde, da Gália, que viria a conquistar na totalidade

As conquistas de Júlio César na Gália alargaram ainda mais o enorme poder e domínio de Roma. Este feito militar viria a ter consequências dramáticas na sua história pessoal bem como na história de toda a  Europa.

Cada vez mais rico e poderoso  Júlio César lutou numa guerra civil contra a facção conservadora do senado, cujo líder era Pompeu que viria a derrotar.

Com todo o mundo romano sob o seu controlo, César regressou a Roma onde foi cognominado Pater Patriae, pai da pátria.
Fez-se nomear ditador vitalício e iniciou uma série de reformas administrativas e económicas em Roma.

Pouco depois, César foi assassinado numa reunião do senado.
Entre os senadores que o mataram contavam-se os seus antigos protegidos Marco Júnio Bruto e Caio Longino Cássio.

Depois da morte de César, rebentou uma luta pelo poder entre o seu sobrinho-neto Octaviano (que Júlio César havia adoptado como filho no seu testamento), e Marco António, antigo aliado de César, que viria a resultar na queda da República e na fundação do Império Romano.


Octaviano haveria de tornar-se o primeiro imperador romano. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Senado e República (módulo 2)

Através de um golpe de Estado, os patrícios conseguiram tomar o poder, criando a República, a res publica, que significa “coisa pública” em latim.O controle sobre a República não era exercido por todos os habitantes, mas apenas pelos cidadãos patrícios.
Dessa forma, com o golpe de Estado, o Senado Romano passou a deter o poder político em Roma até o final da República, em 27 a.C.

A República Romana teve início em 509 a.C. a partir de uma revolta dos patrícios que tirou do poder a monarquia etrusca.

Durante o período republicano, Roma transformou-se de simples cidade-estado num grande império, voltando-se inicialmente para a conquista da península Itálica e mais tarde para a Gália e todo o mundo da orla do mar Mediterrâneo.

O Senado ganhou grande poder político. Os senadores, de origem patrícia, cuidavam das finanças, da administração pública e da política externa. As atividades executivas eram exercidas pelos cônsules e pelos tribunos da plebe. 
Esta fase da história romana vai até ao estabelecimento do Império em 27 a.C.

O Senado tornou-se a mais alta autoridade do Estado.

Os senadores exerciam o seu cargo que continuava a ter carácter vitalício.
Durante a República, o Senado romano fiscalizava e controlava: 
-a justiça,
-as finanças públicas,
-as questões religiosas 
e dirigia a política externa, incluindo a componente militar

O cônsul era o magistrado supremo na República Romana.

Neste período, os cônsules, em número de dois, eram os mais importantes magistrados: comandavam o exército, convocavam o Senado, presidiam aos cultos públicos e, em épocas de "calamidade pública" (derrotas militares, revoltas dos plebeus ou catástrofes), indicavam o ditador que teria poderes absolutos por seis meses.

O ditador teria de ser aceite pelos membros do Senado.

Durante os primeiros dois séculos de sua existência, a república expandiu-se através de uma combinação de conquista e aliança, da Itália central para a península Itálica inteira.

No século seguinte, incluía parte do Norte da África e da Península Ibérica, Grécia, e do território que é hoje a França.

Mais tarde, no período de maior extensão do Império, viria a incluir grande parte do próximo e Médio Oriente, extensões significativas na Europa Central e do Norte e ainda a Britânia. 

O Senado e a Monarquia (Módulo 2)

Durante a Monarquia Romana (séculos VIII a VI a.C.), quando foi formado, o Senado tinha como função principal debater os assuntos públicos que interessavam aos habitantes da cidade.

Apesar do rei no período monárquico acumular as funções executiva, judicial e religiosa, era o Senado que tinha o poder de impor alguns limites ao poder régio, podendo vetar ou aprovar as leis apresentadas mas funcionava, principalmente, na qualidade de órgão de poder consultivo.

Principais poderes do rei durante a monarquia romana:
- Governo vitalício;
- O rei era considerado pelo povo como uma espécie de mediador dos deuses. Portanto, possuía autoridade religiosa;
- O rei também era o chefe judicial, detendo poderes absolutos sobre as leis;
- Na monarquia romana havia também o Senado e a Cúria, porém com poucos poderes políticos em comparação com os poderes reais;
- O monarca mantinha poderes militares, era o comandante supremo dos exércitos;
- O rei tinha também o poder de escolher e nomear os titulares dos cargos públicos.

O último rei de Roma foi Tarquínio, o Soberbo (534 a.C.-509 a.C.) que, por pretender reduzir a importância do senado na vida política romana, acabou expulso da cidade e também assassinado.


Através de um golpe de Estado, os patrícios conseguiram tomar o poder, criando a República, a res publica, que significa “coisa pública” em latim. 

O Senado (módulo 2)

O Senado romano (em latim: senatus) foi a mais importante assembleia política da Roma antiga.
No início, durante a monarquia, a origem dos senadores (vitalícios) dependia da sua riqueza e estatuto social.

O recrutamento era feito entre os patrícios (nobres de linhagem antiga e tradicional em Roma, proprietários de terras);  depois de 400 a. C., em pleno período republicano, passou a ser possível aos plebeus (comerciantes, artesãos e pequenos proprietários), em condições especiais, integrarem o Senado.

O Senado Romano era um conselho de anciãos formado pelos chefes dos clãs que habitavam a cidade de Roma. Os clãs eram grupos de pessoas unidos por laços de parentesco, mas continham também escravos e clientes.

Estes últimos eram homens livres que viviam da prestação de serviços a esses clãs, obtendo deles protecção.

A pessoa mais velha desses clãs, o ancião, ou pater-famílias, era a pessoa que detinha a autoridade dentro dos clãs, controlando a propriedade familiar, incluindo os escravos. O ancião de cada clã era o escolhido para ser seu representante no Senado.


O termo latino senatus é derivado de senex, que significa "homem velho". Portanto, senado significa, literalmente, "conselho de anciãos". 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Roma antiga - algumas notas gerais (módulo 2)

Quando pensamos na Roma da Antiguidade Clássica vem-nos de imediato à memória a vastidão do seu Império.

No entanto, a civilização romana teve origem numa pequena comunidade agrícola fundada na península Itálica no século VIII a.C. 

Ao longo de séculos de existência, a civilização romana passou de uma monarquia para uma república oligárquica, até se transformar num império.

Oligarquia é um termo que tem origem na palavra grega "oligarkhía" cujo significado literal é “governo de poucos” e que designa um sistema político no qual o poder está concentrado n um pequeno grupo pertencente a uma mesma família, um mesmo partido político ou grupo económico.

A Roma antiga também nos faz pensar no poder autocrático, centralizado e divino dos seus imperadores.

Autocracia - Forma de governo na qual um único homem detém o poder supremo: tem controle absoluto de todos os níveis de governo, sem o consentimento dos governados. 

Os romanos mostraram-se muito receptivos a influências artísticas, religiosas e literárias que receberam de diferentes culturas (nomeadamente da cultura etrusca e da cultura grega).
Não se limitavam a copiar as formas mas transformavam-nas de acordo com os seus gostos e necessidades. 

A Roma antiga conheceu, sucessivamente, 3 diferentes tipos de organização política:
Monarquia
(753 a.C a 509 a.C)
República
 (509 a.C. a 27 a.C)
Império
(até 476 d. C. data da queda do Império Romano do Ocidente)

Ao longo da sua História, uma instituição perdurou, apesar das alterações políticas.

Essa instituição foi o Senado.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Grécia Romana - A cultura do Senado (módulo 2)

A Península grega ficou sob domínio romano a partir de 146 a.C.
No entanto, algumas polis gregas conseguiram manter uma independência parcial.
Atenas e outras cidades gregas revoltaram-se em 88 a.C.
A rebelião foi esmagada pelo general romano Sila.

As guerras civis romanas devastaram ainda mais a região, até Augusto organizar a península como a província de Acaia em 27 a.C.

A Grécia foi fundamental enquanto parte integrante do Império Romano, principalmente pela influência que veio a ter na cultura romana.
Essa influência foi tão marcante que hoje falamos em cultura Greco-Romana.

A ambição romana em dominar a região grega estava, em parte, relacionada com uma certa admiração pela cultura, literatura e a arte (dos gregos).
 O contacto entre a civilização romana, mais prática e brutal, com a civilização grega, mais artística e filosófica, levou a um complexo processo de aculturação*.

*Conceito de aculturação:
1. Fenómeno pelo qual um grupo de indivíduos de uma cultura definida entra em contacto com uma cultura diferente e se adapta a ela ou dela retira elementos culturais.
2. Processo de absorção de ou adaptação a uma cultura, por parte de um indivíduo.

A cultura romana foi muito influenciada
pelos gregos; como revela a frase de Horácio*: 
"A Grécia dominada superou o seu feroz
vencedor e introduziu as artes no agreste Lácio** ".

*Quinto Horácio Flaco, ( 65 a.C. —  8 a.C.) foi um poeta lírico e satírico romano, além de filósofo. É conhecido por ser
um dos maiores poetas da Roma Antiga.

**O Lácio (em latim, Latium; em italiano, Lazio) é uma região da Itália central com cinco milhões de habitantes e 17 203 km² , cuja capital é Roma.

Os poemas épicos de Homero inspiraram a Eneida de Virgílio e autores como Séneca, o Jovem, que escreveu peças de teatro a partir do modelo grego.

Trabalho de casa
Pesquisa:
1. Quais são os “poemas épicos de Homero”?
2. Explica, de forma muito resumida, do que trata cada um dos referidos poemas.
3. Quem foi o Virgílio referido no texto?
4. Explica, de forma muito resumida, qual o tema da Eneida?
Responde:
5. Quais as razões que levaram Virgílio a inspirar-se na obra de Homero para escrever o seu poema?




segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Aristófanes e a comédia grega (módulo 1)

Dioniso, o que nasceu duas vezes, viu o ditirambo, que lhe era dedicado, originar duas
formas teatrais distintas: a tragédia e a comédia.
Em meados do século V a. C. a tragédia e a comédia tinham conquistado espaços diferentes.
A tragédia pegava no antigo e no remoto, nos deuses e nos heróis.
O espectador podia ver-se numa versão ampliada de si próprio em conflito com as grandes questões do tempo e do destino.

A tragédia era a visão de acontecimentos distantes no tempo.

A comédia era o espelho do presente.

A tragédia punha em cena o que nunca fora nem poderia ter sido visto, na comédia representava-se o acontecimento comum, a experiência quotidiana.
O velho tagarela, o soldado presumido, a cortesã vaidosa, o jovem grosseiro e presunçoso, eram todos personagens tão vulgares que os gregos tendiam a não lhes prestar atenção.
A comédia tornava estas personagens risíveis.

As máscaras utilizadas na comédia deformavam o corpo dos atores de maneira a acentuar o ridículo da personagem como se o aspeto correspondesse à alma.

A tragédia tinha tendência para mostrar os homens melhores do que eram.
A comédia, segundo Aristóteles, dava “uma imagem dos homens pior do que a real; pior não em relação a um conjunto de defeitos, mas em relação a um fator específico, o ridículo, que é uma variante do repugnante.”

Significado de Ridículo
adj. Digno de riso, merecedor de escárnio ou zombaria, que se presta à exploração do lado cómico, irrisório, risível: situação insólita.
Que tem pouco valor; insignificante, irrisório: quantia ridícula.
S.m. Pessoa ridícula.
O que há de ridículo numa pessoa, coisa ou situação: temer o ridículo.
O ato pelo qual se expõe alguém a ridículo; discurso ou palavras com que se ridiculariza; escárnio, zombaria.
Maneira ridícula de ser ou proceder.
Expor (ou meter) a ridículo (pessoa ou coisa), apresentá-la de modo a provocar o riso ou o escárnio dos outros.
Prestar-se (ou dar-se) ao ridículo, falar ou proceder de modo que provoque o riso ou a zombaria.
Significado de Repugnante
adj. Que provoca repulsa; que ocasiona repugnância.
Que causa asco; nojento ou asqueroso.
Figurado. Que é se opõe aos preceitos morais; revoltante.
(Etm. do latim: repugnante)

As comédias de Aristófanes (chegaram até nós 11 dos seus trabalhos) caracterizam-se por uma extraordinária crítica social. Mas a consciência social nunca o fez esquecer o seu objetivo principal enquanto autor de comédias: fazer rir.

Aristófanes parodiou nas suas comédias tiranos, generais, políticos, juízes, tragediógrafos, jovens, velhos, homens e mulheres, num exercício de liberdade de expressão que ainda hoje é digno de admiração.


Bibliografia: Molinari, Cesare, História do Teatro, Ed. 70; Ferry, Luc, A Sabedoria dos Mitos, Círculo de Leitores;  Boorstin, Daniel, Os Criadores, Uma história dos heróis da imaginação, Gradiva; Castiajo, Isabel, O Teatro Grego em Contexto de Representação, Imprensa da Universidade de Coimbra;

Internet: Wikipédia;  http://faroldasletras.no.sapo.pt/frls_elementos_da_tragedia.htm;  http://www.cesargiusti.bluehosting.com.br/Apoio/tragrega.htm; 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Elementos essenciais da tragédia grega (módulo 1)


Elementos Essenciais da Tragédia Grega

Hybris - Desmesura. Sentimento que conduz os heróis da tragédia à violação da ordem estabelecida através de uma ação ou comportamento que se assume como um desafio aos poderes instituídos (leis dos deuses, leis da cidade, leis da família, leis da natureza). A hybris ameaça a ordem do cosmos e potencia o caos. O herói trágico não tem consciência dos seus erros.

Pathos - Sofrimento progressivo, do(s) protagonista(s), imposto pelo Destino (Anankê) como consequência da sua ação.

Ágon - Conflito (a alma da tragédia) que decorre da hybris desencadeada pelo(s) protagonista(s) e que se manifesta na luta contra os que zelam pela ordem estabelecida (a diké, a justiça). É, no fundo, a luta entre o bem e o mal.

Anankê - É o Destino, a inevitabilidade. Encontra-se acima dos próprios deuses, que não podem contrariá-lo.

Peripécia - Acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos que compõem a ação dramática; rumo contrário ao que o desenrolar da ação até então poderia fazer esperar.

Anagnórise (Reconhecimento) -  O reconhecimento pode ser a constatação (compreensão) de acontecimentos acidentais, trágicos, mas, quase sempre, se traduz na identificação de uma nova personagem.

Catástrofe - Desenlace trágico, que deve ser indiciado desde o início, uma vez que resulta do conflito entre a hybris (desmesura, ameaça de desordem) e a anankê (inevitabilidade), conflito que se desenvolve num crescendo de sofrimento (pathos) até ao clímax (ponto culminante).


Katharsis (Catarse) - Purificação das emoções e paixões (idênticas às das personagens), efeito que se pretende da tragédia, através do terror (phobos) e da piedade (eleos) que deve provocar nos espectadores. 


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A tragédia (módulo 1)


Entre nós a palavra "tragédia” é utilizada para designar um acontecimento doloroso, catastrófico ou para descrever algo extraordinariamente negativo.
Para os gregos significava outra coisa:
tragédia definia, acima de tudo, uma forma artística, ou algo que somente ocorria entre os grandes, os nobres, os heróis ou os deuses.

No campo das artes, tal como nas reuniões sociais, no atletismo e em outras atividades culturais, os gregos adoravam competir.

Gostavam de competições nos festivais que ocorriam durante as celebrações das Grandes Dionísias que tinham lugar no início Primavera, em honra de Dioniso.

Nesse festival os tragediógrafos concorriam a um prémio, com uma tetralogia composta por três tragédias e uma peça satírica cada.

Gostavam de louvar e premiar os vencedores. Criavam um júri composto por 10 juízes, um de cada tribo da Ática, que juravam dar um veredicto imparcial.

O vencedor era anunciado pelo arauto e homenageado com uma coroa de louros. Por vezes os espectadores protestavam violentamente contra um prémio impopular.

Depois de Téspis a tragédia grega evoluiu rapidamente. A criação da tragédia grega deveu-se grandemente a 3 autores dos quais chegou até nós apenas uma pequena amostra do seu trabalho: aproximadamente 30 peças de um conjunto de 300.

A literatura grega reúne três grandes autores de tragédias, cujos trabalhos atravessaram os séculos e são, ainda hoje, frequentemente levados a cena em todo o mundo ocidental:
Ésquilo, Sófocles e Eurípides.

Ésquilo é reconhecido frequentemente como o “pai” da tragédia.
De acordo com Aristóteles, Ésquilo aumentou o número de personagens usadas nas peças de modo a permitir a criação de conflitos entre elas (aumentou para 2 o número de atores).
Aumentando o número de atores, Ésquilo reduziu a atuação do coro e deu à parte falada (o diálogo) o papel principal da peça.
Ésquilo combateu os persas nas batalhas de Maratona e de Salamina.
Apenas sete de um total estimado de setenta a noventa peças criadas pelo autor chegaram aos dias de hoje sendo Os Persas a mais antiga que conhecemos.
Um tema será importante em grande parte dos seus textos: o da pólis como exemplo vital para o desenvolvimento da civilização humana.

As peças de Sófocles retratam frequentemente personagens nobres e da realeza.
Sófocles terá escrito 123 peças teatrais durante sua vida, mas apenas sete chegaram completas aos dias de hoje.
Ao longo de quase 50 anos, Sófocles foi o mais celebrado dos dramaturgos nos concursos dramáticos da cidade-estado de Atenas.
Sófocles competiu em cerca de 30 Dionisíacas, venceu 24 e nunca terá ficado abaixo do segundo lugar; em comparação, Ésquilo venceu 14 concursos e foi derrotado por Sófocles várias vezes, enquanto Eurípides ganhou apenas quatro competições.
Nas suas tragédias, mostra dois tipos de desafios à ordem do cosmo: o que decorre do excesso de paixão e o que é consequência de um acontecimento acidental (destino).
Transformou o papel do coro, tornando-o parte integrante do enredo.
Elevou o número de atores de dois para três.

As peças de Eurípides não são acerca dos deuses ou da realeza, mas sobre pessoas reais. Colocou em cena camponeses ao lado de príncipes e deu igual peso aos seus sentimentos.
Mostrou a realidade da guerra, criticou a religião, falou dos excluídos da sociedade: as mulheres, os escravos e os velhos.
Em termos dramatúrgicos Eurípedes adicionou o Prólogo à peça, no qual “situa a cena” (apresenta o que se vai passar).
Ao longo da sua vida, Eurípides foi considerado quase um marginal e foi frequentemente satirizado nas comédias de Aristófanes.
Eurípides foi autor do  qual chegaram até nós um maior número de peças trágicas: dezoito no total.

A tragédia clássica deveria cumprir, segundo Aristóteles, três condições: possuir personagens de elevada condição (heróis, reis, deuses), ser contada numa linguagem esmerada e digna e ter um final triste.