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terça-feira, 21 de abril de 2009

Fauvismo-Textos da aula de 20 de Abril (comentados) 1





Antes de passar a alguns dos textos da aula de 19 de Abril aconselho que cliques na etiqueta do "Fauvismo", aí ao lado, onde podes encontrar mais informação e reflexões sobre o tema.


"O pintor já não precisa de se preocupar com pormenores insignificantes; para isso está lá a fotografia que é melhor e mais rápida. - Já não cabe à pintura representar acontecimentos históricos; esses encontram-se nos livros. Temos da pintura uma opinião mais elevada. Ela serve ao artista para exprimir as suas visões interiores. Ver é já, em si, um acto criativo."

Henri Matisse

Estas palavras de Matisse colocam em equação algumas das questões essenciais da pintura Moderna.

Por um lado acentua o carácter independente da pintura em relação ao motivo que lhe dá origem. A representação da natureza transforma-se num simples pretexto para o pintor desenvolver o seu trabalho, materializando uma visão pessoal e interior. O acto de pintar já não assenta na reprodução do mundo visível segundo um conjunto de regras académicas pré-definidas, antes é resultado de um instinto artístico de fundamentos estéticos que permite ao artista "exprimir as suas visões interiores".

Por outro lado, ao declarar que "ver é já, em si, um acto criativo", Matisse abre a porta à ideia de que a visão pessoal e particular do artista é determinante, mas coloca também no olhar do espectador uma parte da responsabilidade na conclusão do trabalho artístico. Ou seja, o observador recria interiormente o objecto artístico filtrando-o no seu olhar.



"O esforço que é preciso para nos libertarmos das imagens fabricadas (através da fotografia, dos filmes e dos reclames), exige uma certa coragem e essa coragem é indispensável ao artista que deve ver tudo como se o estivesse a ver pela primeira vez. É preciso ser-se capaz de ver pela vida fora como quando em crianças víamos o mundo, pois a perda dessa capacidade de ver significa a perda de toda a expressão original"

Henri Matisse

Mais uma vez Matisse insiste na ideia de que o acto criativo deve ser originado por um estado de pureza estética apenas ao alcance de um olhar liberto de regras pré-concebidas. Quando somos crianças não encontramos entraves à nossa expressão individual. Se pedirmos a uma criança de 5 anos que desenhe uma girafa ela não hesita e desenha-a. Independentemente do aspecto que tiver o desenho, ali estará, inequivocamente, uma girafa. Se pedirmos a um adolescente de 15 anos que desenhe uma girafa, ele irá resistir à ideia declarando que "não sabe" desenhar uma girafa. O que mudou nesses 10 anos? Porque perdemos nós o instinto natural da sabedoria expressiva ao longo do processo de crescimento?

A resposta parece evidente; à medida que vamos crescendo e adquirimos mais informação sobre o mundo que nos rodeia, temos a impressão de que a representação que fizermos dele deve obedecer a um conjunto de regras de aproximação à "realidade", ou seja: construimos um modelo ideal de representação (académico) que passa pela semelhança formal entre o que representamos e aquilo que é representado, estabelecendo assim uma escala de valores com "certo" e "errado" nos seus extremos, conforme o resultado é visualmente próximo ou afastado desse modelo.
O que Matisse propõe é que recuperemos a capacidade de expressão original através de um processo criativo que combata as regras académicas e se fundamente num olhar descomprometido vendo "tudo como se estivessemos a ver pela primeira vez".




quinta-feira, 5 de abril de 2007

Fauvismo (4) Outra vez Vlaminck

Vlaminck com um auto-retrato
Maurice de Vlaminck, Tugboat on the Seine, Chatou, 1906, National Gallery of Art, Washington, Collection of Mr. and Mrs. John Hay Whitney 1998.74.4


É interessante atentar no texto de Walter Hess sobre Vlaminck. Vem imediatamente a seguir à reflexão sobre Matisse.
Diz assim:

"Vlaminck, pelo contrário, o caso extremo do fauve «patético», exagerou desenfreadamente essa vitalidade [a vitalidade do Fauvismo]. De ascendência flamenga, tinha uma figura de gigante loiro, era pugilista, corredor de ciclismo e violinista de café. Desde 1900 que é amigo de Derain. No seu ateliê comum da ilha de Chatou, no Sena, ambos se sentem uns anarquistas radicais que, pelo gesto da força da sua pintura, se revoltam simultaneamente contra a pseudocultura decadente da burguesia e contra as convenções da arte oficial. (...) «As cores eram para nós como cartuchos de dinamite. Tinham de descarregar a luz. Começávamos directamente pela cor. A ideia em toda a sua frescura era maravilhosa - podermos elevar tudo acima do real.» (Derain)"

Ainda segundo Hess, reza a lenda que Vlaminck travou conhecimento com Matisse em 1901 numa exposição póstuma da obra de Van Gogh e ter-lhe-á dito que

"(...) amava mais Van Gogh que o seu próprio pai e que desejaria fazer ir pelos ares com cobalto e cinábrio a escola de arte oficial."

Vlaminck é aqui apresentado como um verdadeiro esterótipo do "pintor louco". Excessivo, exaltado e com uma tremenda vontade de revolucionar... nem ele saberia ao certo o quê! Seja como for, observando as pinturas deste Hércules arrebatado, podemos identificar toda essa vitalidade brutal e a admiração imensa que nutria por Van Gogh.
Vlaminck parece ter lutado com a tela, agredindo-a com os pincéis. A sua pintura é como que o resultado de uma sessão de pugilismo misturado com luta-livre e ficamos na dúvida sobre quem terá saído vencedor.
Uma verdadeira fera!
Ao contrário, Matisse era uma personagem perfeitamente banal, cordial e, dizem, extremamente delicado no trato. O caso destes dois artistas é bem ilustrativo do risco que corremos se dermos demasiada importância aos rótulos. Ambos surgem associados ao "Fauvismo" e, como podes ver (se pesquisares imagens como te propus uns quantos posts aí abaixo), o resultado dos seus trabalhos é de natureza completamente diferente e com resultados bem distintos.
Nunca é demais parafrasear o nosso mestre Gombrich: "A arte não existe, o que existe são artistas e o seu trabalho está sempre relacionado com o tempo e o espaço que o envolvem."
(não sei se é bem assim mas é qualquer coisa parecida, não tenho o livro aqui à mão)
Há, no entanto, alguns pontos em comum nas obras destes dois artistas que justificam o rótulo. És capaz de perceber quais são?

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Fauvismo (3) E agora... Matisse!


Matisse no seu ateliê "A criatividade não é apenas uma boa ideia, é o Futuro!"

"Pintar significa provocar artísticamente um fenómeno concreto, a partir da superfície. O pintor liga-se a um motivo que impressionou a sua sensibilidade e o seu instinto vital. Há que tornar esse motivo «essencial», traduzindo-o em puros valores de superfícies de cor e de linha, simples e intensificados, pois o mero reflexo das impressões passageiras seria apenas um estímulo fugidio e não um valor duradoiro e essencial. Matisse esclarece como essa tradução [do motivo «essencial» em superfícies de cor e de linha] muda inteiramente as formas e as cores dadas pelo motivo e, no entanto (...) não se afasta do objecto, mas antes o eleva a um estado ideal, pois cada elemento colorido e formal, num debate meramente artístico com o campo de tensão que é a superfície, é levado ao ponto de irradiar pura e tranquilamente o seu valor de eficiência, apoiado e intensificado por todos os outros elementos [da composição]."

Este texto de Walter Hess (in Documentos Para a Compreensão da Pintura Moderna, Edição Livros do Brasil, Lisboa, págs. 66 e 67) reflecte sobre uma certa ideia de "pintura pura" patente na obra de Henri Matisse (1869-1954) em que aquilo que é representado sobre a tela se autonomiza em relação ao motivo que lhe é exterior, atingindo a pintura um «valor essencial» que lhe é próprio e a caracteriza.
Hess prossegue a sua reflexão:

"Este valor de eficiência é nitidamente para Matisse um valor puro de vivacidade, de prazer, de serenidade que na superfície pode ser próprio de toda a cor e de toda a forma. (...) As cores não pretendem exprimir nem significar nada senão cor, mas, na medida em que representam de um modo inteiramente puro o seu próprio valor, acentuado pelo prazer, provocam simultaneamente de uma forma artística um fenómeno (o motivo), a partir da superfície [da tela]. Decoração e expressão tornam-se idênticas e a tensão indivíduo-mundo fica reduzida a um equilíbrio puramente estético. Matisse desenvolveu uma subtil sabedoria estética a partir do Fauvismo sem lhe enfraquecer a vitalidade original."

Podemos então concluir que Matisse "descobre" um processo criativo que torna a tela num objecto particular e artificial, que obedece a regras próprias e específicas ditadas pelo pintor, que é livre de as estabelecer de acordo com a sua sensibilidade artística.

Partindo desta premissa, o artista sente-se livre para desenvolver um jogo formal e cromático que obedece a um conjunto de regras internas, próprias daquele objecto particular, que lhe conferem a coerência necessária para satisfazer as exigências características do objecto plástico.

A questão de "reduzir" a obra de arte a um objecto decorativo não se coloca a Matisse uma vez que aquilo que orienta a sua pesquisa plástica é a busca de uma certa possibilidade de felicidade encontrada na fruição artística e não a intenção de explorar temas grandiosos ou de pendor social. Poderíamos afirmar que Matisse se interessou muito mais pela forma do que pelo conteúdo.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Fauvismo (2) Ainda Vlaminck (1876-1958)

Vlaminck, Port Marly, óleo sobre tela
"Em arte, as teorias têm a mesma utilidade que as receitas em medicina: para acreditar nelas é preciso estar doente."
Esta frase extraordinária de Maurice Vlaminck mostra a atitude característica dos pintores que viveram o furacão estético das Vanguardas, no início do século XX. Animados por uma espécie de sobranceria arrebatadora, os Fauves, os Expressionistas, os Dadaístas e outros que tais, propunham uma revolução total na forma de fazer e pensar a arte.
"O saber mata o instinto. Não se faz pintura; cada um faz a sua própria pintura!"
As academias representam o inimigo a abater, o pintor assume-se como um "super-romântico" genial que segue, acima de tudo, o próprio instinto perante o motivo da pintura. A partir daqui só existirá o futuro!

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Fauvismo (1)

Retrato de Maurice Vlaminck (bela pinta, não?)

Um primeiro exercíciozinho de aproximação.
Arranja disponobilidade e paciência e faz uma pesquisa para cada um destes nomes.
Pronto, está bem, podes pesquisar "apenas" na Net apesar de todos sabermos como há montanhas de livros interessantes sobre Arte a ganharem pó nas prateleiras tristonhas das bibliotecas.
Voltando ao exercício. Procura imagens e mais imagens e, ainda, mais imagens de cada um dos pintores abaixo indicados , não te dês ao trabalho de ler informação sobre eles nem sobre as respectivas obras. VÊ, "apenas", as imagens.
Põe a cabeça a funcionar e faz uma lista das características globais e semelhanças entre elas:
- em termos da utilização da cor;
- no tratamento das formas;
- temáticas mais frequentes.

Henri Matisse


Georges Rouault


Albert Marquet


André Derain


Maurice Vlaminck


Pronto. Já está?
Deves ter chegado a algumas conclusões interessantes, não?
Na Escola falamos sobre o assunto.
Continuação de boas férias.