quarta-feira, 4 de abril de 2007

Fauvismo (3) E agora... Matisse!


Matisse no seu ateliê "A criatividade não é apenas uma boa ideia, é o Futuro!"

"Pintar significa provocar artísticamente um fenómeno concreto, a partir da superfície. O pintor liga-se a um motivo que impressionou a sua sensibilidade e o seu instinto vital. Há que tornar esse motivo «essencial», traduzindo-o em puros valores de superfícies de cor e de linha, simples e intensificados, pois o mero reflexo das impressões passageiras seria apenas um estímulo fugidio e não um valor duradoiro e essencial. Matisse esclarece como essa tradução [do motivo «essencial» em superfícies de cor e de linha] muda inteiramente as formas e as cores dadas pelo motivo e, no entanto (...) não se afasta do objecto, mas antes o eleva a um estado ideal, pois cada elemento colorido e formal, num debate meramente artístico com o campo de tensão que é a superfície, é levado ao ponto de irradiar pura e tranquilamente o seu valor de eficiência, apoiado e intensificado por todos os outros elementos [da composição]."

Este texto de Walter Hess (in Documentos Para a Compreensão da Pintura Moderna, Edição Livros do Brasil, Lisboa, págs. 66 e 67) reflecte sobre uma certa ideia de "pintura pura" patente na obra de Henri Matisse (1869-1954) em que aquilo que é representado sobre a tela se autonomiza em relação ao motivo que lhe é exterior, atingindo a pintura um «valor essencial» que lhe é próprio e a caracteriza.
Hess prossegue a sua reflexão:

"Este valor de eficiência é nitidamente para Matisse um valor puro de vivacidade, de prazer, de serenidade que na superfície pode ser próprio de toda a cor e de toda a forma. (...) As cores não pretendem exprimir nem significar nada senão cor, mas, na medida em que representam de um modo inteiramente puro o seu próprio valor, acentuado pelo prazer, provocam simultaneamente de uma forma artística um fenómeno (o motivo), a partir da superfície [da tela]. Decoração e expressão tornam-se idênticas e a tensão indivíduo-mundo fica reduzida a um equilíbrio puramente estético. Matisse desenvolveu uma subtil sabedoria estética a partir do Fauvismo sem lhe enfraquecer a vitalidade original."

Podemos então concluir que Matisse "descobre" um processo criativo que torna a tela num objecto particular e artificial, que obedece a regras próprias e específicas ditadas pelo pintor, que é livre de as estabelecer de acordo com a sua sensibilidade artística.

Partindo desta premissa, o artista sente-se livre para desenvolver um jogo formal e cromático que obedece a um conjunto de regras internas, próprias daquele objecto particular, que lhe conferem a coerência necessária para satisfazer as exigências características do objecto plástico.

A questão de "reduzir" a obra de arte a um objecto decorativo não se coloca a Matisse uma vez que aquilo que orienta a sua pesquisa plástica é a busca de uma certa possibilidade de felicidade encontrada na fruição artística e não a intenção de explorar temas grandiosos ou de pendor social. Poderíamos afirmar que Matisse se interessou muito mais pela forma do que pelo conteúdo.

4 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Aulas muitissimo bem resolvidas. Curtas, objetivas e conclusivas.

Silvares disse...

Obrigado pelo comentário.
Oxalá os meus alunos possam ter uma opinião idêntica.

luís miranda disse...

"Decoração e expressão...", lembra-te da Arte Nova, e da sua tentativa/projecto de ligar "organicamente" a estrutura funcional à estética e, para o caso, a estrutura à forma e esta já conter a decoração, sem a separação feita ao gosto da época (dos revivalismos). Talvez se ande aqui em épocas próximas e com preocupações semelhantes.

Silvares disse...

É bem observado, sim senhor.
Há mais um pormenor que não será dispiciendo nesta pequena novela; o mestre de Matisse foi Gustave Moreau, o simbolista. Ao que parece um daqueles mestres que todos nós merecemos mas nem sempre temos a felicidade de encontrar. Segundo consta, Moreau incentivou sempre a criatividade de Matisse. Como se sabe, o Simbolismo apostava na re+resentação de um espaço onírico e anti-natural, afastando a temática da observação directa da natureza (essa mestra das artes!). Tal como Redon, também Moreau inventou lugares impossíveis e imaginou seres de outros mundos. Estará isto relacionada com a "descolagem" de Matisse?
Nunca é demias parafrasear o nosso mestre Gombrich: "A arte não existe, o que existe são artistas e o seu trabalho está sempre relacionado com o tempo e o espaço que o envolvem." Desculpa lá, ó mestre Gombrich, por te ter parafraseado tão livremente e à pedrada, mas eu sei que não te importas porque a essência da coisa está lá.
:-)