segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A Cultura da Gare: 6 - Romantismo: notas soltas

O adjetivo "Romantic" é de origem inglesa, e deriva do substantivo "romaunt", de origem francesa ("roman" ou "romant"), que designava os romances medievais de aventuras.
Depois a palavra generalizou-se e passou a designar tudo aquilo que evocava a atmosfera desses romances (cavalaria e Idade Média, em geral).

Dom Quixote de la Mancha é um livro escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616).
D. Quixote é uma paródia aos romances de cavalaria que gozaram de imensa popularidade.
Nesta obra, a paródia apresenta uma forma invulgar.
O protagonista entrega-se à leitura desses romances, perde o juízo, acredita que tudo aquilo aconteceu, de facto, e decide partir à aventura.
Assim, parte pelo mundo para viver o seu sonho: tornar-se um cavaleiro andante.
Enquanto narra os feitos do Cavaleiro da Triste Figura, Cervantes satiriza as histórias fantasiosas daqueles heróis.
A história é apresentada sob a forma de novela realista.
Em Maio de 2002, o livro foi escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos.

A substituição das monarquias absolutas (apoiadas pela igreja) por uma nova ideia, a do estado-nação, vai ganhando forma na Europa depois da Revolução Francesa.

O Romantismo irá contribuir para a afirmação deste novo conceito sociopolítico, que marca a ascensão da burguesia enquanto classe social, através da criação de um imaginário que justifique os ideais nacionalistas.

A recuperação do passado (medievalismo) e do imaginário popular (folclore) são ferramentas importantes na construção das novas identidades nacionais europeias.

Medievalismo:
Há um grande interesse dos artistas do romantismo pelas supostas origens do seu país, do seu povo.
Procuram numa Idade Media ficcionada alguns valores fundamentais para assim criarem uma identidade comum que justifique a existência e a fidelidade a uma nação ideal.
O herói romântico é um paladino que luta sempre do lado do Bem e da Justiça, protege os fracos e os oprimidos, castiga os malvados sem dó nem piedade.

Algumas ideias feitas sobre o Romantismo:
Subjetivismo:
O artista do romantismo quer retratar na sua obra uma realidade interior e parcial. Trata os assuntos de uma forma pessoal, de acordo com o que sente, aproximando-se da fantasia.
Idealização:
Motivado pela fantasia e pela imaginação, o artista do romantismo passa a idealizar tudo; as coisas são por ele interpretadas segundo uma óptica pessoal.
Assim:
a pátria é sempre perfeita;
a mulher é vista como virgem, frágil, bela, submissa e inatingível;
o amor é quase sempre espiritual e inalcançável.
Sentimentalismo ou saudosismo:
No romantismo exaltam-se os sentidos e tudo o que é sugerido de forma impulsiva. Certos sentimentos como a saudade (saudosismo), a tristeza, a nostalgia e a desilusão são constantes na obra romântica.
O conceito de sublime na arte é valorizado.
Diante de uma tempestade ou de uma sinfonia de Beethoven, o sentimento seria da ordem do sublime, mais que do belo.

Nascido da vontade de exprimir o inexprimível, o gosto pelo sublime prevalece sobre o gosto pelo belo. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A Cultura da Gare: 5 - Neoclassicismo e Romantismo - Ordem e Emoção (1)



As revoluções políticas, económicas e sociais que analisámos foram acompanhadas de novas ideias relativamente à relação do Ser Humano com a Natureza e na forma como essa relação se materializa em manifestações artísticas.

Num período de tempo compreendido entre o final do século XVII e início do século XVIII, acompanhando o desenvolvimento técnico e científico que esteve na base da 1ª Revolução Industrial, estabeleceu-se a arte Neoclássica.

O Neoclassicismo procurou um tipo de concepção artística que favorecia a simplicidade e a clareza na busca de formas essenciais (de acordo com o espírito científico e o Iluminismo).
Foi uma arte regrada e, de algum modo, severa, procurando equilibrar o virtuosismo técnico com uma certa idealização da realidade (das formas e dos factos).

A arte neoclássica inspirou-se na antiguidade greco-romana e foi uma arte programática, enaltecendo as qualidades sociais, políticas e éticas de um mundo burguês em ascensão.
As obras neoclássicas eram como que espelhos de virtude, nos quais os cidadãos se reviam, aprendiam e confirmavam os objectivos e as qualidades da República.
O período napoleónico terá marcado o apogeu desta elevação das artes a principais formas de expressão cultural e de valor social.

A expressão artística estava condicionada por um juízo de valor emitido por especialistas. Esses especialistas eram os que ocupavam os lugares mais altos das Academias. A arte Neoclássica foi uma arte académica (academismo*).

*Significado de Academismo - Disposição artística que consiste na apreciação ou imitação de obras que pertencem à Antiguidade Clássica ou a algum tipo de cânone considerado superior pelos membros da Academia. [Por Extensão] Imitação ou cópia da produção artística pertencente à escola clássica.
Que não possui nem demonstra originalidade.

As regras de representação baseiam-se numa tradição centrada num respeito absoluto pelos princípios clássicos.
As regras são impostas pelas Academias.
O Academismo é por natureza conservador e não admite grandes inovações.
Impõe um conjunto de temas (conteúdos) e de regras de representação (formas).

Em termos simples podemos afirmar que o Romantismo será uma reacção contrária ao estilo Neoclássico, tanto nos temas a abordar quanto na forma de os interpretar.
Assim:
       à regra unificadora do academismo opõe-se a expressão individualizada;
       à forma clássica opõe-se a invenção de novas formas;
       ao conservadorismo opõe-se a inovação;
       aos temas clássicos (mitos, alegorias, historicismo moralizante) opõem-se o sonho, a fantasia, temas de cariz popular e literário.

O espírito romântico privilegia uma visão do mundo centrada no indivíduo.
Os autores românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, retratando o drama humano, amores trágicos, ideais utópicos e desejos de escapismo. 
Se o século XVIII foi marcado pela objetividade, pelo iluminismo e pela razão, o início do século XIX seria marcado pelo lirismo, pela subjetividade, pela emoção e pelo eu.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A Cultura da Gare: 4 - A Europa das linhas férreas



As linhas férreas eram utilizadas, desde o século XVIII, na atividade mineira e nas pedreiras.
Foi o engenheiro de minas inglês George Stephenson (1781-1848) que criou a primeira linha férrea para uso comercial e faz surgir assim o comboio a vapor e os caminhos de ferro.
Juntamente com a navegação a vapor, os caminhos de ferro contribuíram para a chamada Revolução dos Transportes.

A Inglaterra foi pioneira nesta revolução.
Em 1840 foram construídos mais de 8854 km de caminhos de ferro por todo o mundo mesmo na América Latina, no Japão, na China e em África.
O caminho-de-ferro contribuiu para:
-          o desenvolvimento da economia permitindo a circulação dos produtos industriais e agrícolas em larga escala. Maior circulação significava mais comércio, mais riqueza, mais investimento nos meios de produção;
-           avanço  industrial através de mais pesquisa tecnológica e científica;
-           nascimento de novas cidades e desenvolvimento arquitetónico e urbanístico das cidades antigas;
-           construção de novas infraestruturas como pontes, viadutos, túneis, apeadeiros e gares;
-          deslocação constante e rápida de produtos e pessoas entre as cidades, as zonas industriais e rurais, minorando o isolamento e encurtando distâncias;
-           aumento da mobilidade geográfica e social das populações com deslocações rápidas e a baixo custo;
-           aparecimento de novos empregos e profissões;
-           rapidez na circulação de informação devido ao serviço de correio;
-           avanço cultural através da circulação de informação (as companhias de teatro fazem tournées nacionais e internacionais).
-           controlo militar e estratégico proporcionando aos exércitos intervenções mais rápidas.

Entre 1864 e 1891 os comboios deram a volta ao mundo.
Primeiro nos Estados Unidos da América.
Oitenta e três horas após deixar a cidade de Nova Iorque – costa leste –, uma composição ferroviária da Transcontinental Express chega a São Francisco – costa oeste – no dia 4 de junho de 1876, percorrendo 2775km.

Na Rússia o comboio Transiberiano viria a percorrer uma linha de caminho-de-ferro com 9288km de extensão.
Ainda hoje é uma viagem que fascina muita gente pelo mundo fora.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A Cultura da gare : 3 - Admirável Mundo Novo

Como consequência do êxodo rural deu-se um grande aumento demográfico nas cidades.
Lentamente as condições de vida foram melhorando devido ao desenvolvimento urbano.
O proletariado fabril cresceu, a sociedade burguesa, industrial e urbana consolidou-se originando aquilo que designamos por classe média.

A instrução primária generalizou-se, a imprensa difundiu-se.

Devido ao racionalismo laico* e ao positivismo** desenvolve-se a ideia de o Homem é o único factor de progresso.

Racionalismo laico*
Defende que os assuntos religiosos devem pertencer somente à esfera privada do indivíduo. Separa os assuntos religiosos dos assuntos do Estado.

Positivismo**
O positivismo defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro.

Em meados do século XIX dá-se a designada 2ª revolução industrial que envolveu uma série de desenvolvimentos na indústria química, elétrica, petrolífera e do aço.

A 3ª Revolução Industrial terá início em meados da década de 1940, logo após a 2ª Guerra Mundial. É um processo com a liderança dos EUA, que se tornou a grande potência económica e militar. Tem como principal característica a informatização progressiva das tecnologias utilizadas no sistema de produção industrial.

Isto significou um grande desenvolvimento tecnológico que teve como consequência o surgimento de importantes invenções que viriam a transformar profundamente o modo de vida das populações dos países europeus e da américa.

A rapidez e a qualidade da informação melhoraram enormemente!
A capacidade de comunicar à distância (telégrafo, telefone) ou a de transportar pessoas, bens e informação escrita (comboio, barcos a vapor) contribuiu para uma mais vasta difusão de bens culturais.

O sistema de governação tende a ser democrático.

Sob a forma de monarquia constitucional  ou de repúblicas onde o poder é exercido por deputados eleitos por sufrágio representando diferentes partidos políticos que defendem diferentes pontos de vista.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A Cultura da Gare : 2 - Uma nova sociedade (o mundo das cidades)

Uma vaga revolucionária iniciou-se em 1830 em França, com o levantamento que ficou conhecido como a Revolução dos Três Dias Gloriosos. As revoluções liberais alastraram pela Europa: a Bélgica libertou-se da Holanda e houve tentativas (fracassadas) de unificação da Alemanha e da Itália e de libertação da Polónia que havia sido anexada pelo império russo. O movimento teve também posteriores repercussões em Portugal e Espanha.

A pequena burguesia e o operariado foram as forças que estiveram na origem destas revoluções contra a alta burguesia, a aristocracia conservadora e o poder político instituído cuja finalidade consistia em manter e fortalecer o grande capital, os impérios coloniais utilizando a força e a repressão para alcançar os seus objectivos.

Graças à invenção da máquina a vapor, a produção de mercadorias aumentou e os lucros dos burgueses donos de fábricas cresceram muito.

As fábricas espalharam-se rapidamente e provocaram mudanças profundas. O modo de vida e a mentalidade de milhões de pessoas transformaram-se .
O mundo novo do capitalismo, da cidade, da tecnologia e da mudança incessante triunfou.

O crescimento das cidades, potenciado pela revolução industrial, fez com grandes parcelas das populações tivessem migrado dos campos para as cidades em busca de melhores condições de vida.

Os camponeses vieram trabalhar para as fábricas tornando-se operários. Estas grandes massas de trabalhadores assalariados deram origem a uma força social que viria a ser muito importante: o proletariado.

Proletariado é a classe social mais baixa que se formou dentro das sociedades industrializadas.
Proletariado é a classe dos proletários, os operários, constituída por indivíduos que se caracterizam pela sua condição permanente de assalariados e pelos seus modos de vida e atitudes decorrentes de tal situação.   

A palavra proletário teve origem entre os romanos, para descrever o cidadão pobre que só era útil à República para gerar “prole” (filhos), que no futuro iria servir a Pátria. No século XIX, a palavra proletariado passou a ser usada para identificar a classe sem propriedade, a classe que não possuía meios de produção capazes de gerar o seu sustento, precisando de vender a sua força de trabalho para aqueles que possuíam os meios de produção.

O proletariado sobrevivia em condições miseráveis distinguindo-se dos escravos apenas por receber pequenas quantias em troca do seu trabalho.

O proletariado era profundamente explorado nos salários, nos horários de trabalho, na falta de segurança e de higiene, tanto nas fábricas como nas suas habitações.

Não havia apoio na velhice nem na doença. As mulheres e as crianças eram contratadas com salários ainda mais miseráveis que os dos homens.

Com o passar do tempo os operários adquiriram consciência de classe e organizaram-se em associações sindicais com a finalidade de lutarem pelos seus interesses.

A Cultura da Gare: 1- Tempos de mudança

Durante séculos, desde a queda do Império Romano, a Europa assistiu ao estabelecimento de um regime apoiado em dois pilares: a Igreja (o cristianismo) e a monarquia (até ao absolutismo).

Este estado de coisas veio ser posto em causa com as grandes revoluções do final do século XVIII (Revolução Americana e Declaração da Independência; Revolução Francesa e Revolução Industrial) que tiveram o cunho de uma nova classe social em ascensão: a burguesia.

A revolução Francesa desenvolveu-se até culminar na ascensão ao poder de Napoleão Bonaparte que mais tarde viria a declarar-se Imperador.

Ao longo dos primeiros anos do século XIX os exércitos napoleónicos envolveram-se em numerosas guerras tendo conquistado uma parte significativa do território europeu.
Napoleão viria a ser derrotado na batalha de Waterloo, na Bélgica, em 1815. Esta última derrota marca o fim definitivo do sonho imperial napoleónico.

A guerra da França liberal e revolucionária havia assustado os países absolutistas: Prússia, Rússia e Áustria-Hungria. Foram estas potências que formaram a Santa Aliança, responsável pela derrota de Napoleão em Waterloo.


Estas potências organizaram o Congresso de Viena (1814-1815) onde os monarcas se comprometeram na defesa comum da monarquia e da religião contra qualquer tentativa revolucionária de alterar as forças tradicionais do continente europeu. 

Foi em Viena que desenharam novas fronteiras, dividindo entre si partes do império napoleónico, anexando vastos territórios de forma autoritária sem terem em conta as aspirações nacionalistas dos povos subjugados.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A cultura do palco (6) - Gil Vicente

Gil Vicente (1465-1536) foi um dramaturgo e poeta português. Criador de numerosos autos* e farsas, é considerado o maior representante do teatro popular em Portugal.
Gil Vicente terá nascido em Guimarães, no ano de 1465. O seu nome apareceu pela primeira vez ligado ao teatro, em 1502, quando escreveu e encenou o “Auto da Visitação” ou “Monólogo do Vaqueiro”, em homenagem ao nascimento do príncipe D. João, futuro D. João III.
O monólogo foi originalmente escrito em castelhano, em que um simples homem do campo expressa a sua alegria pelo nascimento do herdeiro do trono de Portugal, desejando-lhe felicidades.
O Auto da Visitação tem elementos claramente inspirados na "adoração dos pastores", de acordo com os relatos do nascimento de Cristo.
A encenação incluía a oferta de prendas simples e rústicas, como leite, ovos e queijos, ao futuro rei, ao qual se pressagiavam grandes feitos.
Gil Vicente que, além de ter escrito a peça, também a encenou e representou, usou o quadro religioso natalício numa perspectiva profana.
Gil Vicente tornou-se responsável pela organização dos eventos palacianos. Retratou através de suas peças, os valores populares e cristãos da vida medieval.
O teatro português não nasceu com Gil Vicente.
Já no reinado de Sancho I, os dois actores mais antigos portugueses, Bonamis e Acompaniado, realizaram um espectáculo de "arremedilho“ tendo sido pagos pelo rei com uma doação de terras.
O arcebispo de Braga, Dom Frei Telo, refere-se, num documento de 1281, a representações litúrgicas por ocasião das principais festividades católicas.
E há registo de outras representações anteriores ao “Auto da Visitação”.
No entanto, poucos exemplos restam dos textos pré-vicentinos e Gil Vicente é considerado o primeiro grande dramaturgo português.
A sua obra vem no seguimento do teatro ibérico popular e religioso que se fazia, ainda que de forma menos profunda que a do mestre. 
O seu teatro caracteriza-se por ser primitivo e popular, embora tenha surgido no ambiente da corte, para servir de entretenimento.
Gil Vicente escreveu mais de quarenta peças, em espanhol e em português, onde criticou de forma impiedosa a sociedade de seu tempo. O valor do teatro vicentino reside na sátira, muitas vezes agressiva, contrabalançada pelo pensamento cristão.
A sua obra é rica pela universalidade dos temas.
A sua observação satírica não deixou ninguém de fora: papa, rei, clero feiticeiras, alcoviteiras, judeus, moças casadoiras e agiotas.
A galeria de tipos é rica e variada e muitos foram ridicularizados: a imperícia dos médicos - “Farsa dos Físicos”, a prática das feiticeiras - “Auto das Fadas”, o comportamento do clero – “O Clérigo da Beira”, e por aí adiante.
São geralmente apontados, como aspectos positivos das suas peças, a imaginação e a originalidade; o sentido dramático e o conhecimento da problemática do teatro.
Alguns autores consideram que a sua espontaneidade, apesar de reflectir de forma eficaz os sentimentos colectivos e exprimir a realidade criticável da sociedade a que pertencia, perde em reflexão e em requinte.
A sua forma de expressão é simples e directa, sem grandes floreados poéticos.
A última obra de Gil Vicente, é um típico divertimento cortesão. Seguro do seu estilo, cria situações dramáticas, cómicas ou patéticas, equilibrando-as.
O Prólogo é apresentado de forma interessante.
Em lugar de um personagem, o autor faz entrar dois, um acorrentado ao outro, criando uma alegoria relacionada com um provérbio da época: "Se queres matar um homem prudente, ata ao seu pé um ignorante". 

O filho, Luís Vicente, na primeira compilação de todas as suas obras, classificou-as em autos e mistérios (de carácter sagrado e devocional) e em farsas, comédias e tragicomédias (de carácter profano). 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A cultura do palco (5) – o espectáculo isabelino


O espectáculo teatral da época isabelina (renascimento/maneirismo/barroco) caracteriza-se pela valorização do texto enquanto elemento principal e aglutinador da acção.

Os temas e as formas de abordagem são muito variados tentando, sobretudo, corresponder aos anseios do público ao qual os autores se dirigem.

O espectáculo isabelino pode ir da levíssima comédia alegórica à profundidade escura de uma tragédia de contornos clássicos ou às histories(peças que abordam temas históricos).  Estas categorias principais admitem, consoante os críticos, os historiadores ou especialistas, uma série infindável de subgéneros.

Há, no entanto, formas de ultrapassar estas classificações. Shakespeare, para dar o exemplo mais famoso, mistura nos seus dramas o trágico e o cómico, o sério e o ridículo tal “como sucede na vida”. As suas peças alcançam uma dimensão que escapa à classificação académica e gera uma forma teatral muito particular.

O cenário do teatro isabelino não tinha um carácter representativo , não representava um ambiente particular.

O lugar onde a acção se desenrolava podia ser indicado por alguns acessórios ou, talvez, por elementos pintados na cortina mais recuada no palco mas nunca (ou muitíssimo raramente) através de elementos que transfigurassem o espaço de representação.

Era o espectador que tinha de imaginar ou deduzir o ambiente em que a cena se desenrolava partindo da acção e das palavras do texto. Os acessórios de cena só seriam utilizados caso contribuíssem para o desenvolvimento da cena e raramente seriam incluídos com a finalidade de indicarem o local da acção.
Como seria possível ao espectador seguir o percurso das personagens no espaço e no tempo ao longo da narrativa? Philip Sidney, um poeta da época, descreve assim um espectáculo:

“Agora vêem-se 3 mulheres que vão colher flores e, por isso, devemos crer que o cenário é um jardim. Depois percebemos que, no mesmo lugar, ocorreu um naufrágio e, então, censuramo-nos se não acharmos  que o cenário é um rochedo, mas do fundo deste surge um monstro horrível com fogo e fumo e, então, os pobres espectadores são levados a entrar numa caverna. Entretanto aparecem 2 exércitos, representados por 4 espadas e escudos, e quem terá o coração de pedra capaz de não permitir ver ali um campo de batalha?”

Era o actor, com o seu gesto e a sua palavra, que colocava a acção em determinado local ou expunha a passagem do tempo. Por isso mesmo os acessórios eram como extensão ou suporte da actuação dos actores.


Assim, a mímica dos actores tinha uma particular densidade, não por ser exagerada ou violenta, mas porque era elemento essencial para descrever tanto o estado de espírito e as reacções psicológicas das personagens como o local onde decorria a acção e o ambiente, de um modo geral. 

A cultura do palco (4) – teatro isabelino


O teatro isabelino (1558-1625) refere-se  ao trabalho teatral desenvolvido durante o reinado de Isabel I de Inglaterra (1533-1603), sendo associado, tradicionalmente, à figura de William Shakespeare (1564-1616) embora houvesse, à época, centenas de companhias espalhadas pelo país.
Considera-se que a era isabelina durou até o fim do reinado de Jaime I, em 1625, e mais tarde, incluindo seu sucessor, Carlos I, até ao encerramento dos teatros no ano de 1642, devido à Revolução inglesa.

O facto de se prolongar para além do reinado de Isabel I faz com que os espectáculos produzidos entre a Reforma e o encerramento dos teatros em 1642, se denomine Teatro Renascentista Inglês.
Shakespeare dedica a Jaime I algumas de suas principais obras, escritas para celebrar ascensão ao trono do soberano.

Otelo (1604),
O Rei Lear (1605),
Macbeth (1606 - homenagem à dinastia dos Stuart)
A Tempestade (1611 - inclui, entre outras cenas notáveis, uma "mascarada", interlúdio musical em honra do rei que assistiu à primeira representação).

O período isabelino não coincidiu cronologicamente, na sua totalidade, com o Renascimento europeu e menos ainda com o italiano, mostrando um forte acento maneirista e até mesmo barroco em suas elaborações mais tardias.

A época isabelina representou a entrada da Inglaterra na Idade Moderna, num mundo sob o impulso das inovações científico-tecnológicas como a teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico e das grandes explorações geográficas (colonização europeia da América do Norte).


A peça A Tempestade, por exemplo, é ambientada, não por casualidade, numa ilha das Caraíbas cuja população, representada simbolicamente pelo "selvagem" Caliban e pela sua mãe, a bruxa Sycorax, está submetida às artes mágicas de Próspero, isto é, à tecnologia e ao progresso científico dos colonizadores europeus. 

A cultura do palco (3) – espaço de representação


A representação teatral necessita de um espaço que a suporte.

Normalmente, quando pensamos em Teatro, imaginamos uma sala específica: uma plateia para os espectadores, um palco para os actores…
… mas, o espaço teatral (theatron, o local onde se vê), sendo uma manifestação da arte da arquitectura, tem-se transformado ao longo da sua história.

Não assume uma forma definitiva.

A partir da separação entre quem assiste e quem interpreta, houve necessidade de pensar o espaço de modo a responder a necessidades muito específicas.

É a tal separação entre plateia e palco.

Como se existisse uma fronteira entre o espaço real, habitado pelo espectador e uma outra dimensão, uma dimensão mágica: a dimensão da representação, onde algumas pessoas se transformam em actores e assumem outra realidade.

Enquanto o Teatro mereceu o apoio dos poderosos e foi manifestação de cultura (popular ou erudita) teve espaços arquitectónicos específicos para as suas representações (Grécia e Roma).

Após a queda do Império Romano do Ocidente e durante o período histórico que designamos por Idade Média, o Teatro foi considerado como obra de contornos pouco cristãos e quase desapareceu. Por essa razão, a arquitectura teatral deixou de ter visibilidade.

Quando regressou, na forma de Mistérios, o Teatro foi acolhido no próprio espaço da Igreja. Primeiro no interior do templo, mais tarde no espaço defronte à sua entrada.

A representação desenrolava-se em estrados erguidos para o efeito ou em carroças, quase sempre ao ar livre. Onde houvesse aglomeração de pessoas era um local adequado à representação teatral.

Isto fez com que, neste período, algum teatro ganhasse contornos mais populares e menos eruditos. A separação entre duas formas de expressão teatrais (uma para a elites e outra para o povo, separação que já vinha dois tempos do Império Romano) é cada vez mais notória.

Os trovadores, os malabaristas, actores e contadores de histórias, deslocavam-se em busca de público, representando tanto nas praças de igrejas e mercados como nos salões dos palácios da nobreza.

Naqueles tempos era o artista que procurava o público. Nos dias de hoje é o público que procura o artista, deslocando-se a locais específicos, as salas de espectáculo.

Com o Renascimento e na transição para o Barroco (séculos XVI/XVII), o Teatro ganha novamente notoriedade e conhece um período de grande expansão.

Ressurgem os espaços arquitectónicos exclusivamente destinados à representação teatral.

As características do edifício teatral irão evoluir e transformar-se mas o essencial da sua distribuição espacial fica definida pela tal fronteira entre espectador e actor, a tal linha imaginária que separa a plateia do palco.


Chama-se a este tipo de espaço, palco ou sala à italiana por ter sido em Itália que o conceito foi desenvolvido. 

A Cultura do Palco (2) – Sociedade e cultura


Luís XIV por Hyacinthe Rigaud (1701)

No período que designamos por Cultura do Palco (séculos XVII e XVIII, na Europa) vão desenvolver-se principalmente dois géneros de linguagem artística: o Barroco e o Rococó.

A igreja Católica, abalada pelas divisões religiosas provocadas pelos movimentos protestantes ao longo do século XVI, procurou reforçar a sua imagem através de uma forte disciplina interna.

No Concílio de Trento (1545-1563) a igreja Católica renegou o Protestantismo e reafirmou os seus dogmas doutrinais dando início à Contra-Reforma.

A Contra-Reforma pretendeu restabelecer, junto das comunidades, a imagem de uma igreja forte e gloriosa. A arte foi um dos meios utilizados para promover essa imagem de poder e glória!

A arte Barroca irá desempenhar esse papel propagandístico num período histórico que é actualmente designado por Antigo Regime.

O Antigo Regime foi um período marcado pela centralização política que veio a culminar, nos finais do século XVI, com o Absolutismo régio de origem divina (o Rei tem poder absoluto e esse poder é-lhe conferido por Deus).

O Absolutismo consiste, basicamente, na concentração de poder nas mãos de uma única pessoa, o Rei.

Este poder absoluto é suportado por uma aparelho de estado cada vez mais complexo e centralizado. O Rei e os seus acólitos tudo vigiam, tudo controlam e tudo subjugam à sua vontade, supostamente a vontade de Deus.

Estruturas fechadas e dominadoras, a igreja Católica e o estado Absolutista impuseram a obediência à ordem estabelecida recorrendo a processos frequentemente violentos e duramente repressivos (a Inquisição e as polícias política).

Uma das intenções básicas do Absolutismo era a estabilidade do regime social, mantendo uma sociedade de ordens onde as mudanças eram rigidamente limitadas pela lei.


As criações intelectuais (as artes plásticas, a literatura, a criação científica) serão utilizadas como forma de propaganda fazendo passar para as massas populares o discurso ideológico dominante. 

A Cultura do Palco (1) - introdução





David por Miguel Ângelo e Bernini, renascimento e barroco

O Renascimento reintroduziu o conceito de ordem e equilíbrio desenvolvendo as formas artísticas herdadas da Antiguidade Clássica.

O Barroco é um estilo artístico que marca uma reacção da igreja Católica à Reforma Protestante.
Encenação, sentido de palco, criação espectacular.

Pode considerar-se o Barroco como uma continuação natural do Renascimento.

Ambos os movimentos compartilharam o interesse pela arte da Antiguidade clássica, embora desenvolvendo interpretações muito diferentes.

Enquanto os artistas do Renascimento valorizavam sobretudo qualidades de moderação, economia formal, austeridade, equilíbrio e harmonia…


…os do Barroco mostravam maior dinamismo, contrastes mais fortes, maior dramaticidade, exuberância e realismo e uma certa tendência para o decorativismo. 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A Cultura do Palácio 7 - O classicismo humanista e a recuperação das antigas formas cénicas

No seu período de afirmação medieval, o cristianismo assumira uma posição de rejeição em relação à cultura clássica.

A Igreja, tentara, através da transformação e extensão dos rituais em formas espectaculares, esgotar em si a vida espiritual dos fiéis incluindo aquilo que nos dias de hoje poderemos designar por vertente recreativa e cultural.

Foi assim que, ao longo do calendário religioso, se acrescentaram (ou mesmo sobrepuseram) manifestações festivas aos rituais da missa, no interior das igrejas.

Muitas vezes o ritual era contrafeito e parodiado. Noutras ocasiões realizavam-se danças e jogos que podiam degenerar em explosões orgíacas.

A partir de certo momento, a Igreja preferiu optar pela pureza do ritual da missa do que integrar estas manifestações de tendência considerada pagã.

Assim acabaram todas as manifestações de entretenimento e de paródia como também as extensões dramáticas do ritual: o drama litúrgico foi abolido e os mistérios afastados do recinto sagrado.

O latim foi adoptado, definitivamente, enquanto língua exclusiva do ritual litúrgico.
A celebração da missa acabou por encerrar-se sobre si própria.
O clero participa e realiza o ritual, aos fiéis é exigida, apenas, a sua presença.

Os Mistérios, os Milagres, as representações sagradas vêem-se separados da sua fonte e saem do recinto religioso tornando-se formas de teatro populares.

O teatro regressa às ruas dos burgos.

Com o “renascimento do mundo antigo” – processo que irá desenvolver-se centrado na Itália e que levará à afirmação de uma cultura aristocrática e elitista (o poder afirma-se através do gosto) – o teatro será abordado sob diferentes pontos de vista:
  • literário
  • arquitectónico
  • cenográfico
  • cénico

O teatro religioso irá cruzar-se com o “novo” teatro que desponta no século XVI. Assiste-se à recuperação das formas teatrais clássicas de pendor erudito.

O teatro saiu do recinto religioso para reencontrar o seu lugar no mundo laico.

As comédias clássicas romanas constituíam o centro vital das festas de corte.
A cultura clássica tornava-se elemento integrante da vida aristocrática.

Os convidados só chegavam ao pátio onde era montado o teatro após uma longa festa com baile.
O espectáculo tinha, além da representação dramática, um desfile dos trajes que iriam ser usados pelos actores pois nenhum traje era usado duas vezes.

Mesmo quem tinha de representar “escravos gregos, servos, patrões, mercadores” (normalmente os actores eram pessoas da corte) vestia trajes luxuosos e modernos.

É difícil imaginar como se representavam as comédias, normalmente interpretadas pelos intelectuais  da corte.

Entre os actos e no final das comédias eram inseridas curtas acções espectaculares, os entreactos, geralmente momentos de mímica e dança.


Talvez pela sua maior intensidade espectacular, os entreactos cedo começaram, a ser mais apreciados que as comédias que geralmente se tornavam mais pesadas devido a más traduções do latim.